Primeiramente, man

Em uma sociedade com um exponencial de grandeza gigantesco e da ilusão de um fácil acesso, é incrivelmente crescente o sentimento entre os programadores de não precisarmos mais nos preocupar em disponibilizar ferramentas e dados de forma desconectado. Isso é uma grande ilusão.

Era meados de 2008. Eu estava sentado no computador do Tec-Centro1, um projeto público de acesso a informática na biblioteca pública da cidade. Eu lembro bem, que naquela tarde chovia forte mas eu gostava de passar a tarde lá “mexendo na internet”. Ficava entrando em vários sites como Viva o Linux, fóruns de informática, fazendo download de arquivos e tudo mais. Eu ja estava desenvolvendo um interesse sobre programação e Linux, e naquela tarde caiu a rede de internet. Eu achei que seria rápido, mas acabou durando um tempo relativo. No konqueror2 ainda tinha algumas páginas abertas que eu ficava relendo, postagens de um fórum sobre algo que eu já não me recordo, até que me chamou atenção na assinatura de um usuário:

RTFM! man e o info são seus amigos

$ man man | info software

Eu não fazia ideia do que aquelas iniciais queriam dizer, mas eu sabia que toda vez que eu via um $ era referente a um comando pra ser rodado no terminal. Abri um terminal e digitei exatamente o que a frase dizia. Evidentemente o terminal reclamou que não existia entrada para “software”. Rodei apenas o primeiro comando.

man - an interface to the system reference manuals

Achei aquilo maravilhoso. Duas coisas, ainda me chamam a atenção até hoje: a formatação com seus cabeçalhos em negrito e caixa alta, e a organização em seções.

Eu simplesmente achei incrivel a ideia de ter um manual dentro do computador. Lembrava de algumas fotos que eu ja tinha visto de uns programadores norte-americanos de bigodes e óculos gigante em frente a um computador velho agarrado em um grande manual de como modificar aquela máquina pra servir as ideias dele3. Eu fiquei abismado, ali tinha tudo, era como um Yahoo! do computador, melhor ainda do sistema Linux.

Comecei a testar com programas que eu ja usava, e tudo me fascinava mais. SYNOPSIS, EXAMPLES, SEE ALSO e o que inconscientemente me fez amar aquilo: AUTHORS. Veja bem, aquele software que eu usava pra ler um arquivo de texto (cat), não era só um software que uma empresa se adonava, era um software escrito por uma pessoa comum, elas tinham nomes, endereços de emails e tudo. Não era algo genérico feito por mais uma empresa de computador. Aquilo dava uma sensação de poder, de humanização.

Ter acesso a um documento bem escrito, bem organizado, é fundamental para democratização da compreensão das ferramentas que a gente usa. Ainda mais quando ela esta ali, sempre disponível a qualquer momento, sem depender de sites obscuros, sem necessidade de cadastro ou gastar horas procurando.


  1. Não lembro se esse era o nome oficial do projeto, mas era algo dessa linha ↩︎

  2. Na época que os navegadores eram mais simples e tinham o objetivo de ajudar o usuario a navegar na internet. ↩︎

  3. Algo parecido com isso ↩︎

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